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ESCALADA E MEDITAÇÃO

Muitos escaladores treinam forte para subir de nível. Via de regra esses treinos são focados na parte técnica e física. O resultado é uma obvia evolução na rocha, mas nem sempre conseguimos escalar, ou principalmente guiar, no nosso real limite. E essa diferença muitas vezes se deve a fatores psicológicos.

Quem não se lembra de ter desistido de mandar uma passada por medo de cair, ou de passar num lance fácil de forma atabalhoada, ou até ter bobeado num procedimento de segurança por falta de atenção?

Lembraças melhores são daqueles dias em que se supera um lance difícil ou exposto, com a mente tranquila, como se não houvesse a mínima possibilidade cair. Nesses momentos a mente está totalmente focada, sem nenhum pensamento perdido. Pura inteligência corporal. É comum nesses momentos um "estreitamento" da percepção para os limites dos apoios em uso e as passadas imediatamente a frente. 100% de atenção e 0% de dispersão.

Esse estado, que se alcança em alguns momentos e com mais facilidade em vias longas, é semelhante ao estado meditativo.

O estado meditativo é o estado onde se cessa a "metralhadora" de pensamentos dispersos da nossa mente. De forma resumida, meditar é não pensar. Pode ser em silêncio, imóvel em posição de lotus ao bom estilo budista, ou pode ser realizando alguma atividade estando totalmente focado, sem pensamentos dispersos.

Monges budistas buscam o estado meditativo em todos os momentos do dia, estando na posição de lotus ou caminhando ou até lavando vasilhas. 100% de atenção e 0% de dispersão.

Foi nesse estado mágico que o corredor Joaquim Cruz ganhou um ouro olímpico. Totalmente concentrado, correu e venceu, e simplesmente não se lembra de nada que tenha acontecido a sua volta.

Na olimpiada seguinte o mesmo Joaquim Cruz largou, se distraiu olhando a própria imagem no telão do estádio, perdeu o foco e perdeu a prova.

Então, a proposta aqui é que os escaladores desenvolvam a atenção 100% para evitar o que ocorreu com o Joaquim Cruz, que como a maioria de nós, entra e sai do estado meditativo de forma aleatória, nem sempre estando com atenção plena quando isso é necessário, ou seja, quando estamos guiando aquela passada sinistra longe da proteção. Ou quando temos que tirar aquela derradeira energia para mandar a última passada daquele boulder.

E o caminho é se juntar a um grupo de Meditação, tentando estender o aprendizado e a prática para além dos limites da aula. E principalmente assumindo o comando do estado mental na hora de escalar. Vai fazer uma grande diferênça.

Existem momentos em que bate uma grande insegurança durante uma escalada. Nessas horas parece que estamos pensando mais na distância da proteção abaixo do que no lance que temos que superar acima. Resistimos a abandonar algum apoio confiável e muitas vezes nos cansamos muito, perdendo uma energia que pode fazer falta depois.

Talvez o lance esteja realmente acima da nossa capacidade, mas não se pode avaliar isso dominado pelo medo, com mãos suando frio e o corpo tenso. O primeiro passo é reassumir o controle, ou como se diz nos grupos de Meditação, "voltar pro Centro".

Como nessas horas não dá para sentar e meditar por alguns minutos, a saída é fazer exercícios chamados "âncoras", que rapidamente trazem de volta o foco e eliminam parte da tensão corporal. Aliás, vale lembrar que a escalada flui melhor com o corpo sem tensões, quando os movimentos saem naturalmente.

Abaixo algumas âncoras, que ajudam muito a estar no estado mental correto para escalar:

Acordou pilhado, com o estômago embrulhado pensando no crux da via. Escolha uma parte do corpo como âncora, de preferência uma mão ou um pé. Mantenha o foco nesta parte do corpo, tentando sentir (sem tocar). Isso funciona muito bem durante a caminhada de aproximação. A tendência é chegar na base da via mais sereno, com um bom estado mental para escalar.

Você já está na base da via, bastante tenso. Pare um pouquinho e use a mão como âncora. Tente sentir suas mãos (sem tocar). Quando conseguir sentir as mãos tente sentir individualmente cada um dos dedos. Se você conseguir é sinal de que já recuperou boa parte do foco. Hora de entrar na via, tranquilo.

Você já está na rocha e "pilhou" para passar num lance. Nessas horas a respiração fica curta e rápida, limitada pela própria tensão corporal. A dica aque é fazer a âncora na respiração, ou seja, respirando longamente e tentando imaginar a tensão corporal como uma energia ruim deixando o corpo.

Uma outra boa dica é aproveitar trechos fáceis da via para se preparar para os difíceis. Ao invez de passar nesses lances de forma displicente, passe com atenção, principalmente tentando fazer um perfeito trabalho de pés. Isso vai te deixar mentalmente mais focado para encarar as passadas mais duras.

E lembre-se; tente fazer isso sem tensão corporal, pois em grande parte é essa tensão que consome nossa energia e dificulta os movimentos.


Fonte: Magia da Montanha
Por Waldyr Neto


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