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"É bom estar plenamente concentrado tentando uma via difícil. Estes momentos são tão puros; não há separação e não há nada a pensar ou entender, pois está tudo exatamente ali. O aqui, o presente, o momento. Tudo!" Cris Sharma

ESCALADA NO AQUI AGORA, MOMENTO A MOMENTO

O que acontece com a mente durante uma escalada que realmente flui? São dias nos quais não percebemos o tempo passar, os sentidos tornam-se aguçados e parecem captar, com força, a realidade e a vida se mostra mais intensa. Já aconteceu algo semelhante com você?

O que, de repente, nos faz sentir mais vivos, mais intensos e até mais lúcidos? Ou seria melhor dizer mais insanos? Será exagero dizer que um lance ou uma escalada nos pareceu realmente alucinante?

Ora, uma das metas das psicoterapias humanista-existencialistas é que o cliente ou paciente consiga viver, pelo menos em alguns momentos, inteiramente no momento presente. Se este ser humano é capaz de viver responsavelmente no aqui-agora, consideramos que a terapia está sendo exitosa. Nestes raros momentos a mente penetra numa realidade mais profunda da existência. Os problemas, as dores e os tormentos que levavam a pessoa a estar presa em seu passado são liberados. O anseio pelos acontecimentos que virão e o medo do que acontecerá no futuro são temporariamente suspensos. Nada mais existe senão aquilo que está acontecendo neste exato momento. Nada mais desejo ser do que aquilo que sou. Não há intensidade maior em toda a existência que a intensidade deste instante.

Também não é à toa que, no Budismo, Yôga e outras tradições milenares, a importância da vivência do momento presente é tão enfatizada.

É interessante ressaltar, contudo, que não se trata de uma vivência irresponsável e egoísta, como muitos de nós na escalada experimentamos. Segundo Ken Wilber, um dos principais teóricos da psicologia transpessoal, o viver pleno no presente também é a manifestação da consciência amplamente expandida que contempla sensivelmente a biosfera (contexto ecológico) e a noosfera (fatores mentais coletivos ou sociais).

Psicólogos e psiquiatras humanista-existencialistas e também psicanalistas, como Frederik Perls, Rollo May, Eric Fromm e Carl Rogers, beberam nas fontes das tradições orientais e através de sua pesquisa e experiência clínica posteriores confirmaram sua importância.

Também é consenso entre psicólogos de várias correntes que os momentos que mais guardamos na memória são os emocionalmente mais intensos de nossas vidas. É, portanto, exatamente nesta intensidade que reside a sensação plena de viver agora.

Perguntamo-nos, então, por que muitos de nós não somos capazes de viver isto? Por que muitos dos que buscam terapia não conseguem viver no presente? Por que muitos de nós, escaladores, sentimo-nos, mesmo na parede e em nossa prática desta atividade, tão distantes desta sensação?

Freud dizia que os indivíduos mais evoluídos psicologicamente e saudáveis não passavam de "bons neuróticos", sendo uma das características do indivíduo neurótico a incapacidade de viver no presente. Estes estariam sempre oscilando entre o que já foi e o que virá. Ao contrário dos neuróticos graves que são tragados por "demônios" do passado, ou têm pânico, pavor de algo no futuro. Neuróticos saudáveis estariam um pouco mais "centrados" no presente, podendo usufruir da vida com um mínimo de conforto emocional, embora confinados a nunca estar efetivamente na "realidade", e sim em uma oscilação mental entre passado e futuro.

O que muitos de nós não se dão conta, é que, em uma escalada, sobretudo nos defrontamos diretamente com a nossa mente. Lançamo-nos em um desafio de torná-la mais saudável, ou seja, "forçamos" o nosso psiquismo a viver mais no aqui-agora.

Para viver neste presente sagrado que a montanha nos oferece, seremos sempre forçados a rever o nosso velho companheiro medo, a nossa vaidade, o nosso caráter, a nossa auto-estima baixa ou elevada, a nossa noção da realidade. Acredito que, se estivermos atentos a isto, podemos aliar a nossa escalada a metodologias de "treinamento mental", tais como a prática do Yôga, da meditação, da psicoterapia, para citar algumas, de forma que nossa construção física esteja acompanhada e reforçada pelo nosso desenvolvimento psicológico.

Parece-me que, ao negligenciarmos, como escaladores, esta realidade psicológica, os aspectos cognitivos e emocionais representarão um eterno peso, quase como um lastro que dificulta o nosso corpo físico a se elevar em direção a um maior desempenho na escalada.

Finalmente, ao nos movimentarmos sobre a rocha, nos é oferecido, de forma mais ou menos consciente, a oportunidade de encontro com a vida em sua mais pura intensidade, o aqui-agora, o eterno presente. Neste momento experimentamos a simples sensação de estar vivo, no corpo, com a rocha, com o vento e a respiração. Escutamos no ambiente da montanha: "Que lance insano!", "Alucinante!". Quem sabe não temos justamente, nestes lances, a oportunidade de viver mais próximos da realidade, mais lúcidos, aqui-agora, momento a momento?

"... a escalada é minha forma de rezar, porque se eu escalo estou tão concentrado naquilo, que me torno vazio e aberto a novas experiências." Reinhold Messner


Fonte:
Associação Gaúcha de Montanhismo
Por Guilherme Zavaschi


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